Caneta

|

A caneta serpenteia sobre a escrivaninha.
Projeta sua língua para além de sua boca.
Empenha-se em movimentos ludibriantes.
Objetiva desflorar o imaculado papel.

Ela me seca.
Deseja-me como um instrumento
Para satisfazer sua lascívia.

Sou para ela como cachimbo e a papoula.
Um meio para o seu contentamento,
Uma ferramenta para saciar o seu vício.

E como presa hipnotizada
Não resisto ao seu tento.
Ponho-me, então, ao seu serviço
E ao seu corpo me uno.

E, tal qual seringa plena de entorpecente,
Lanço-a sobre o límpido papel.
A desvirtuar aquele branco puro
Com a podridão das suas nefastas palavras.

Eu, Você e o Silêncio do Fim do Mundo

|

Acordei menos eu
E um pouco mais você.
E era o dia do fim do mundo.
Era um silêncio que ensurdecia,
Que incomodava.
Forçava o grito.
Era seu nome correndo e saltando pelas minhas cordas vocais.
E era um caos paralisante e paralítico.
Era o fim do mundo,
Tanto fim que já não era nada.
A não ser o ardor da ausência de tudo
E do silêncio que enlouquecia.
E eu era muito menos eu naquele dia...
Meu relógio só sabia me dizer tic-tac.
O reflexo no espelho era muito mais você.
E o mundo caindo.
De fora para dentro: silêncio!
De dentro para fora: angústia, saudade, desespero.
Mas eu era menos eu que você.
E era o mundo em seu dia final
Seu nome rompendo o segredo
Ecoando pelos quatro cantos
Antes das quinas ruírem...
Era o fim do mundo

E eu era você mais que eu mesmo.


|

Irene

Teu nome não é tão sonoro

Quanto Ângela, Suzana, e Ana

Mas és tão doce

Quanto o açúcar Darlene

Irene

Meus atos são reflexos do teu verbo

Teu inverno minha tempestade

Invernal não dissolvente

Somente és

Irene

Imagem

|

Agora o que se revela
mostra-se sem pedir licença
invade a casa arranhando as paredes,
o teto e todo o chão do quarto
e se levanta tão forte
que só pode ser verdade.
Somente o que é verdadeiro tem tamanha força.
E essa verdade, essa força, arremessa-me contra a mobília
Sacode-me ao ponto de trazer novamente a sensatez.
Como estalo de sexta-feira a noite,
percebe-se que aquilo que se dizia
não passava de um mero engano
Que de tão pouco,
logo se desfez
e o que permanece
é o que agora se revela
mas que de fato sempre existiu.

O Tempo

|

Do meu quarto
A janela me reapresenta aquele mesmo horizonte.

Minha visão curiosa invade a sua casa vazia
Para demonstrar um fino pano
Que com eficácia apaga minhas digitais de seu corpo agre-doce.

Da escada sinto o cheiro de um entorpecente qualquer
Que exala das garrafas violadas de noites passadas,
Que cuida em remover meus resquícios de seus pensamentos.

Gemidos longínquos brotam agonizantes
De um livro esquecido que suplica o meu retorno.
É um blefe apaixonante de um de seus muitos capítulos
Que almeja incutir a idéia de acréscimo de lembranças.

Mas do seu lar vazio sou eu agora menor
Sou eu agora quase nada,
Quase ínfimo
Quase esquecimento.

Sou eu poeira desprendida alçada ao vento
Em um vôo sem destino
Aos caprichos de um sopro-deboche de um deus comum (o tempo).

Heidn

Baixa Cidade

|

A fachada em pedaços
Atiça a curiosidade dos olhos.
Impressiona como as ruínas dessa baixa cidade
Ainda trazem fascínio.
Esse cenário decadente
Precipita a memória a mergulhar
No poço profundo das longínquas lembranças.
É perceptível o ar pesado daquele passado
Onde homens marchavam sobre homens,
Como se estes fossem estradas.

Heidn
19.03.2010

Essa Menina

|

Ah, essa menina!
Essa menina do sorriso fácil
Ela se maquia frente ao espelho
Veste a máscara que ainda não sei decifrar.

A menina que diz de forma ingênua
O que eu penso com malícia.
Codifica aquela conversa
Que de tão simples desarranja meu norte.

Ah, menina, até onde vende verdades?
Até onde concede passagem?
Permite-me trafegar até ao lugar que desejo andar?
Ah, essa menina!

Heidn Carvalho
22/03/2010

|

Quando é noite
Teu cansaço vem
E junto minha insônia
“Por que não sonho com você?”
Já desistir destas técnicas de lembranças...
Meu corpo torce
E sem saber o seu dorme
Carregado dos fardos (não só seus)
Calada... minha alma te cobre
Como quem pede desculpas para si mesmo

Fotos

|

Daqui a pouco tem

|

Abre-se aqui

Um universo de claustrofobias orgásticas...

Não destas que nos prede de miséria,

Mas as que nos falta para entendermos uns aos outros

Esta aberta a temporada de caça aos pensamentos...

Quem gosta disso, alimente-se e nos alimente!!!!

 

©2009 . | Template Blue by TNB