Nesses dias que não me cabem, já não posso contar com sua compreensão. Digo isso não por omissão sua ou negativa. É questão de opção e de honestidade (minha).Confesso, sem qualquer balbucia, que honestidade, nesses casos, é tatuagem em forma de alvo sobre o calcanhar de Aquiles. Sigo, então, a esperar o dardo certeiro que apresentará minha face ao chão. Receio a aspereza da tez do solo que me ampara. Mas já é hora de se despir do manto ímprobo, que protege, de maneira capciosa, minhas costas tão temerárias. Devo tal comportamento não a você, pois continuo egoísta. Assim procederei apenas por mim, para aliviar o peso que sobrecarrega meu travesseiro durante as noites geladas que, às vezes, a rara solidão cuida em me apresentar. De olhos fechados, meço a extensão da sua bondade de ocasião, que acredito até ir além desse aconchego semestral. E então por isso, prezo-te por me prezar, mas, querida, entendendo ou não, já nem quero que me compreenda. Seja, sem desvios, a imagem que o seu espelho polido reflete, só para eu poder ser eu sem me preocupar com mais nada. Sem me omitir em seus dias, expurgando-me e expurgando-te. Isso porque já não desejo nos negacear por conta dos caprichos de minha vaidade varonil, maliciosa e concupiscente.
Sete
| author: Heidn CarvalhoA sete passos do seu sossego,
Rezo sete Ave Marias,
Em sete terços
Iluminados por velas de sete dias.
Com olhar astuto, miro os sete lados
E vejo os seus sete cantos.
Repreendo sete vezes
E repilo o Sete Peles
E por sete vezes grito o seu nome.
Saliva por saliva,
As suas sete letras em minha garganta.
Sinto o gosto de suas sete partes
E sete vezes, sinto o seu cheiro.
Em sete dias
O seu todo refazendo a criação.
E em sete horas, as sete maravilhas
Reluzindo a sua melhor face,
Sepultando, a sete palmos, a desarmonia.
E aos sete céus, agradeço as suas sete vidas
Sua presença em minhas sete capas
Apaziguando as minhas sete tormentas,
Acalentando minhas sete faces.
Domando em um só tempo,
Por todas as vias,
As minhas sete feras.
Ele e A Porta
| author: Heidn CarvalhoEle parou de sangrar e sentou-se, ainda ofegante, ao lado da porta. Aquela mesma porta que outrora reluziu como novo caminho. Agora, pela parte interna, ela, fechada, barrava-lhe qualquer esperança. Era branca a sua cor, a porta. Opaca, agora intransponível, ela - a porta. Já não havia cor, ele. Parou de sangrar por falta de conteúdo sangue, que se esgotava. Ele – recipiente - vaso vazio a beira da porta, ela. Rígida, maçaneta – égide, sem entradas, porque internamente fechada, ela - a porta – sem chaves. Barrava-lhe o acesso, bloqueava-lhe a luz, ali sentado, sem mais sangrar - ele e a porta.
Deitei ao seu lado, segurei a sua mão e disse com a cara mais lavada:
- Não cobrarei de você poesias no café da manhã. Fica comigo essa noite e não dorme. Prometo a felicidade que nunca causei a alguém, e, na verdade, nem sei se ela existe, mas... Vamos descobrir juntos?
Você sorriu descrente (minha mentira mais perfeita não convence nem a mim mesmo), mesmo assim, apertou minha mão forte. Pediu um gole d’água, um contraste com minha embriaguez sacana. (Quando bebo as palavras ficam mais soltas, e não aceito que diga que me revisto de todo egoísmo!). Mas você disse mesmo assim.
– Então, tá, disse eu (fui egoísta?). Bebi mais um gole do whisky, confesso que estava aguado...
– E aí, qual é o próximo passo? – perguntou você.
Eu já não disse mais nada... fingi ter fraca memória e raciocínio lento, só por malícia, pois lembranças, sarcasmos e sabedoria não nos eram convenientes naquela hora...
Minha mão não mais nas suas, você sorriu o sorriso do sim. Olhou com os olhos de pressa. (demora não, - nem precisou dizer)...
- Apaga a luz, se você quiser, disse você.
Eu não apaguei (lógico). Sou devoto de São Tomé e nunca vou à igreja.
- Quero você é de luz alta, disse com meio sorriso e com toda maldade...
"Você sorriu, mas não um meio sorriso igual ao meu. Sorriu com aquele ar de autoconfiança que me fez estremecer. Abriu os braços, num gesto de aprovação.
Não tive mais dúvidas. Joguei meu corpo sobre o seu. Beijei seus lábios ternamente.
Senti teu coração palpitar. Nosso respirar era compassado. Você me afagava de um modo acalentador.
Por uma fração de segundos, tive a impressão de que acontecia algo diferente. Fiquei consternado... Nos seus olhos vi vorazes desejos.
Não sei bem se fui eu que te possui ou se foi você quem me possuiu. Mas naqueles momentos, fomos um do outro. Fomos só eu e você num intervalo que pareceu durar toda uma noite.
Não conseguíamos mais dizer nada. Nem era preciso. Nossas mentes, nossos corpos estavam em total sintonia.
Você começou a murmurar palavras ao meu ouvido. Não sei o que elas queriam dizer, mas me fizeram mais seguro, mais forte, mais, mais, mais... tudo...
Ao final de tudo, nossos corpos se emparelharam num suspirar ofegante.
Te olhei. Você sorria. Essa visão me satisfez.
Procurei meu copo, mas não encontrei.
Desfaleci...
Ao acordar, sobrara apenas seu perfume pelo ar...
Mas cadê você?? Não pode ter ido embora assim!!
Achei apenas seu telefone anotado num cantinho da minha agenda..."
Vivi grande partes de minha vida...
Em nenhuma delas, eu creio fielmente,
Nunca obtive tantas certezas quanto à que obtive ao teu lado
Não sou mais o mesmo ser q canta nas janelas,
Que escreve poemas lindos
Sei que meus verbos mudaram, sei que meu tempo mudou...
Ando cansado,
De varias outras coisas que não incluem seu ser...
E você, por estar em mim acaba sendo ferida...
Perdoe-me, por não alimentar os sonhos que lhe mostrei
Por não ser as coisas que você ouviu dizer
E que esperava que eu fosse....
... me perdoe.
São tempos estranhos...
Onde meu romantismo tolo não cabe mais
Não brilha mais os olhos
Onde a próxima frase é menos composta e formulada que a anterior...
Perdoe-me.
O verbo que há agora em mim, é muito mais concreto!