A Poesia e O Papel

|


O mundo a dar voltas


E eu, que de tanto evitar,


Deparo-me ante a tua pálida face.




Estamos cá, nós dois,


Íngremes, reapresentados


Pelo teor desta alta madrugada.




A fuga incapaz


Delata as nossas necessidades.



Lanço teu corpo límpido sobre a cama.




E, vencido pela tara,


Entrego-me a altivez das minhas cismas,


Que logo serão nossas,


Embevecidas pelos cânticos singelos


Desta muda madrugada.




Do reencontro,


O parto febril desaloja o engasgo


Após o espólio do meu âmago


Unir-se as suas entranhas.




Ultrapassa a esfera do desejo,


Para nascer do necessário, filha minha, filha nossa.




Pois, nem sempre há como impedir...


E depois de nos valer de tantos abortos


Por culpas exclusivas minhas,


Por fingir-me tantas vezes saciado,


Nós a concebemos


Distintas das outras que feneceram


E que há muito jazem no sepulcro dos meus esquecimentos.




Venha à vida e cuide em denunciar-me


Como um espelho.


Remeta as minhas notícias


Ao tribunal implacável de minhas memórias.




Nossa filha,


Fruto do nosso reencontro,


Aparta-te de mim:


Prematura, imperfeita e sem fim.





0 comentários:

Postar um comentário

 

©2009 . | Template Blue by TNB